sábado, outubro 01, 2005

Mudanças

Como tudo se faz de mudanças, também elas em mim reinvindicaram existências materiais... e por isso o fim do Fugiremos e o ínicio do Imensidões...
Pedro

domingo, setembro 11, 2005

Fugiremos

Eu disse, eu disse que um dia talvez fosse melhor assim.
Porque sempre houve em mim um mais querer, um mais querer ser além do que sou. Mas já não sei bem...
As palavras são tão lindas, a expressão, o encontro, as entrelinhas, os significados ocultos, os simbolismos, as hipérboles, metáforas e eufemismos, é tudo tão meu, tão nosso e tão forte. A minha vida na realidade fez-se ao mar, fez-se mesmo, não sei porque teimei em continuar a ser um observador.
Porque sempre haverá para mim uma essência de Iluvatar, o Deus Criador, que faz surgir em seu redor as materializações da sua mente de sonhador. E tal como ele criou o mundo com a música, eu criei o meu decorado com as palavras que ao som das músicas me fazem levitar. E assim fui Iluvatar, e assim tornei-me eu. Porque sei bem que há sempre algo que fica por dizer, há sempre algo que não se acrescenta, deixa-se ao sabor de algo que em nós e nos outros palpita sensações de adivinhações e suposições. E também tal como para ele, para mim faz todo o sentido que eu acredite na sua existência.
Sempre... sempre... (a minha palavra preferida, penso eu), sempre eu, sempre o mundo lá fora a sussurrar-me estratégias, sempre o mundo cá dentro a encontrar alternativas. E o processo continua, e os passos também.
Tudo começou um dia, Fugiremos era o nome do livro, Fugiremos foi o nome do blog, Fugiremos foi a voz ténue da minha mente que potenciava utopias.
Fugiremos foi só um nome, porque as palavras jamais serão transparentes também esta não o é, pelo menos para mim, fugiríamos da realidade, fugiríamos de nós mesmos, fugiríamos de tanta coisa, porque as fugas são tão necessárias, porque elas na realidade reivindicam existências. Eu já lhe proporcionei esse direito e assim nasceu o meu espaço, o meu refúgio, onde digo e repito "no one can stay in the fire and not be consumed", eu já consumi, já fui consumido, o prazo passou...
E assim, nas palavras de mim para mim mesmo, nos sons que descoodifico em mim, no tratamento que o meu ego pede para mim, nas suavidades e pacificidades duma existência que ainda não me bateu à porta, eu compreendi, encostei-me a mim mesmo, às paredes do meu corpo, e realmente ouvi e compreendi. Tudo é tão diferente, subjectivo, opaco, complicado... difícil...
Nós somos sempre mais, eu sou muito mais, tal como vocês... temos virtudes, temos defeitos, temos um sorriso lindo, ou um olhar lindo, temos subtilezas próprias ou presenças únicas, e somos, cada um, cada brisa num mundo em constante mutação, tentado contrariar, tentando acompanhar, e há sempre algo, mas há mesmo, algo que fica por dizer... por se ver, por se observar...
O agradecimento de mim próprio para vocês fica aqui, o meu muito obrigado, pelos pessoas extraordinárias que são, pelos múltiplos significados que para mim têm, para a importância e imponência que efusivamente continuarão a ter...
E o meu adeus fica também, nas palavras que não vão fugir, porque se materializaram...
Chegou a hora, o momento, é impossível continuar, não direi que é porque quero, não direi que é porque me apetece, direi muito subjectivamente que é o que me dita o corpo e a mente que possuo... às vezes é assim, há algo, simplesmente um algo, um algo que transforma tudo, e lá no fundo acaba por não ditar nada...
As palavras continuarão a ser palavras... sempre... e elas fogem... não as deixem fugir...
Há mesmo alturas que o corpo pede mesmo descanso e a mente segue-o... chegou definitivamente a altura, há sempre um oposto, o começo e o fim, o fim chegou... desta vez chegou mesmo... e a fuga acabou...
Um abraço para todos vocês,
um imenso obrigado cá mesmo do fundo...
Pedro

quinta-feira, setembro 08, 2005

Íntimo

Falo-te com palavras que não se ouvem.
Reparo-te com olhos que não se abrem.
E tu...
"O nosso espaço ecoa em nós...". Vou começar.
Das vezes que somos nós, da essencialidade que sentimos cá dentro, nessas vezes é fácil conhecer-mo-nos ou pelo menos é um princípio para isso. Eu já fui muita coisa. Eu posso dizer que já fui a tua pessoa por um dia, só porque pude entrar em ti.
Sabias que as conversas que mantenho cá dentro ainda ressoam melodias passadas?
Sabes que a intimidade é o cerne de tudo. Vou tentar.
Diz-se por aí que não é assim tão díficil, diz-se também que é o tormento dos tormentos. Quem sou eu para concordar com qualquer uma delas? Eu construo em mim o que sinto.
Eu sei que sou difícil, há quem diga peculiar, estranho, eu digo que vivo num estranho mundo peculiarmente difícil.
Se há algo, se reside de facto algo cá, onde tudo explode, esse algo só se materializa na intimidade. E a minha intimidade... a minha intimidade, a porta para mim, a porta para um nós, vou realmente tentar.
Eu já mandei calar, eu já me afastei, até houve vezes em que me aproximei demais, eu já chorei, eu já virei costas. E tudo, tudo porque a barreira que crio em mim, quando se tenta o abraço, o toque, o compreender, o aninhar, o sentir. Há mundos que se criam, com chaves diversas, e a quem pertence a chave? A chave-mestra?
Eu não deixo, eu simplesmente não consigo deixar. Eu sei que as palavras de nada serviram.
Mas... porra, como custa, dizer isso... como custa. Como custa saber que poderia haver um equílibrio. E há sempre aqueles momentos onde estamos completamente siderados a contemplar um qualquer sorriso em nós, a saboreá-lo, a entende-lo, e depois quando alguém tenta, a frieza abate-se, o nonsense invade, e o corpo rende-se e chora. A minha intimidade é algo mais que me transcende, eu não consigo desvendá-la, não... não é a partilha dum leito, não, não é um só beijo, é a barreira desmoronar-se, é a entrega, é a segurança que sim, que pode ser, é o dar a conhecer, é aceitar e poder emanar a natureza residente, é o saber que não há retorno, e mesmo assim continuar, arriscar...
É aquele beijo repleto de fôlego interior, é aquele orgasmo de incensos da nossa mente, é a música embalar-me e eu não a negar só porque não quero ser embalado, é aquela entrega sem receios, sem medos, sem obstáculos, é aquela mão que se sabe poder estender-se. Penso eu...
E... tu alguma vez entraste em mim? Alguma vez te sentiste cá dentro? Te reflectiste? Já alguma sentiste aquilo de que falo em mim? A barreira nega-se a quebrar... eu sei que sim, ela nega-me entregas e reclama dores de alguêm, ela impede passagens e abre portas de desesperos. E eu não sei como dizer a mim: "Fica..."
A descodificação do meu intímo, o saber encontrar uma brecha, o espreitar e perceber que sem sentido de sanidade eu posso até ir em frente. O amor é só um caminho, a intimidade é o percurso. E eu só sei que quero caminhar, mas não encontro onde começar.
Eu não deixo, eu não consigo deixar, tenho medo sei lá, é demasiado grande esse mundo para mim, tenho receio e assim tenho medo ou o venero demais e volto a ter medo, que merda, secalhar sou mesmo um merdas. Mas não consigo deixar ninguém tentar domar a intimidade, afasto, refugio-me ainda mais em mim, petrifico, e não reajo, sou tão medricas.
-"Eu tento ainda mais, eu não desisto", dizes tu.
-"Não posso, é demais, percebe isso, eu acabo por magoar-te ainda mais, eu queria, acredita que sim." E aí os olhos derramam-se, procuram esconderijos num qualquer espaço que não envolvas, os gestos complicam-se, o corpo levanta-se, serpenteia-se e perde-se. E tu repetes, e eu digo que não dá, não consigo, é mesmo verdade, como queria que entendesses.
Eu queria mesmo, merda. Os cheiros das tuas velas só me fazem sentir ainda mais culpado, mas no fim de contas, a culpa não reside em mim, sei lá eu, eu só não consigo... Pedes-me um abraço, eu nego-to, tu levantas-te, reclamas isso, só isso, eu digo que não, não pode ser, entende, merda... Sabes que se te abraço, não sou eu que me afundo mais, és tu. Perguntas se há alguém, perguntas se é algo em ti, se é o sexc, o que poderia ter sido diferente, e estendes os teus braços de encontro a mim. Não faças isso, que merda, não me faças isso, não és tu, sou eu, não há alguém, sou mesmo eu, a noite de ontem foi delirante, fazer amor contigo é lindo, e tu és linda e perfeita, mas não és tu, sou só eu. Então "porquê" murmurram os teus braços querendo ramificar-se em mim... E eu digo-te que tenho de ir, estou-me a conhecer e desconhecer demasiado hoje, é muita coisa, que merda, é tanta coisa, sinto-me pequeno e este espaço nem é meu, é teu, e não há fotos e músicas minhas aqui, e onde me seguro eu?
- "Fica", - "Não posso, tens de me deixar ir, não estou bem, estou a abater-me em mim próprio e tenho medo e não posso ficar, e nem o beijo que despertas em mim me poderá fazer ficar."
Eu queria poder dizer-te que quero ficar, mas o certo é que quando passar aquela porta levo mais de ti do que de mim... e assim nunca lá chegarei...

segunda-feira, setembro 05, 2005

Talvez por não saber falar de cor, imaginei...
Talvez por saber o que não será melhor, aproximei...
O meu corpo é o teu corpo, o desejo entregue a nós
Sei lá eu o que queres dizer,
Despedir-me de ti, adeus, um dia voltarei a ser feliz,
Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor, não sei o que é sentir
Se por falar falei, pensei que se falasse era fácil de entender...
Talvez por não saber falar de cor, imaginei...
Triste é o virar de costas, o último adeus,
Sabe Deus o que quero dizer...
Obrigado por saberes cuidar de mim...
Tratar de mim...
Olhar para mim...
Escutar quem sou...
E se ao menos tudo fosse igual... a ti... e eu...
Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor, não sei o que é sentir
Se por falar falei pensei que se falasse era mais fácil de entender...
Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor, não sei o que é sentir
Se por falar falei pensei que se falasse era mais fácil de entender...

"Talvez" - The Gift

quinta-feira, setembro 01, 2005

Conhecer

O cansaço.
A minha mente já te desvendou quase todos os enigmas, o meu corpo quase todos os teus estigmas.
Estou cansado, mais uma vez... mais uma vez esgotou-se o tempo, a paciência e a serenidade.
Sinto-me impotente perante tal ardor interior que reclama divãs de pacificidade.
Sempre tive um prazer enorme em lutar para que tudo o resto estivesse bem à minha volta, sempre sorri, sempre perguntei, sempre afirmei, nunca desisti. Não é esforço, realmente não o é, faço-o por gosto, adoro ver tudo bem à minha volta, venero a sensação que isso me proporciona. Admiro a forma como cresci, como me construí, como também fui construído, e o modo como os passos da minha sempre vida me anteciparam a momentos de deleite pessoal. Mas há momentos tão intrínsecos à natureza humana (ou só à minha? duvido...) que provocam avalanches de incertezas, tufões de possessões, tornados de inconstâncias. Pausas... Sinto-me cansado.
E sei que lá no fundo, no cerne do que me compõe, sei que adoro quem sou, mas custa-me a admito-lo, não... não sou nenhum jovem Narciso, não... Sou eu, cansado, mas... eu.
Pensava que estas alturas de insconstâncias eram próprias de jovens mentes sonhadoras e utópicas, supunha que este tipo de cansaço devia ter sido vivido aos 18 ou 19 anos... pensava que aos 23 seria tudo um bocadinho mais concreto. A certeza é só mais uma utopia, não será?
E tenho 23 anos, e cá estou eu, a percorrer estas ruas já tão familiares, tão conhecidas, como se prolongamentos de mim se tornassem quando nelas me aventuro a conhecer o desconhecido. O mundo é tão prevísivel às vezes, e tão imprevísivel também...
O cansaço que o viver transporta só é comparável à solidão do astro lunar, é como o mel ser doce, é como o vinho tinto ser o manjar de deuses mortais.
Mas há sempre o oposto da moeda, o lado oculto da lua, aquele que raramente se vé, mas que se sabe existir. Não nego que o cansaço só me consome porque eu o autorizo a tal, às vezes parece que gosto de sentir profundamente o oposto, para lá mais à frente delirar com o contraste...
Hoje porventura estou cansado, hoje entreguei-me, hoje aceito o súplicio de mim para mim mesmo, e quero repousar em mim, seja lá o que isso for, seja lá o que isso significar...
Hoje deposito os braços nas minhas costas, abraço-me, danço uma qualquer música que desperta em mim mil orgasmos de louvores.
Hoje resigno-me à plenitude que a vida realmente é. Agora não peço luzes, não rogo por absolvições. Entrego-me à virtualidade constante que em mim reivindica estados díspares. Porque lá no fundo eu sei que a essência residente é única, ímpar.
Mas há momentos, há delírios e extravagâncias, há loucuras e deleites.
E há pausas, há percursos que merecem ser admirados, outros observados a dois, e há pausas que convincentemente sussuram existências. Tenho de descodificar-te cansaço, tenho de conhecer-te no espaço que rogas.
Hoje, uma vez mais (porque também é necessário), a minha vida não se faz ao mar, fica em terra a ver o navio.
Vou parar, sentar-me, aperceber-me de mim na desconhecida forma que me tornar, e admirar, observar, compreender-me...

segunda-feira, agosto 29, 2005

Estradas




Do caminho.
Dos cruzamentos, das intersecções, das rotundas e atalhos.
Do parar, do mirar e observar
Da indecisão, dúvida e risco
Da banda sonora de violinos e vozes épicas,
Da transcendência da natureza insáciavel que transpira memórias.
Dos momentos de segundos contorcidos em olhares para além de meros espaços.
Do virar para a esquerda ou para a direita, do desafiar a linha recta em frente.
Do acontecimento ou da resignação, da impotência ou da aventura.
Dum argumento que se alcança, dum passado que não se dissipa.
Da estrada escura numa noite de luar, das cintilantes pistas codificadas lá no topo.
O imaginar, o supor, o talvez acreditar...
O por vezes querer que não haja um fim, que a estrada não encontre um destino, que a mente desconheça limites.
Do pé que não quer encontrar o pedal do meio, das pernas que querem continuar, dos braços que não cedem.
Ao som da música, ao sabor da vida, no solestício de Verão, na queda do Outono
Das paisagens que se riem, das nuvens de Constable, dos girassóis de Van Gogh,
Das fúrias de Rushdie, da fantasia de Márquez, da paixão de Duras...
Dos castanhos áridos, dos verdes húmidos e dos azuis salgados
Num quadro que se cria com tintas da minha vida.
Esquerda?
Direita?
Em frente?
Estradas de mim...

quinta-feira, agosto 25, 2005

Dimensões de mim

Ergueste-me acima do mundo
Abraças momentos, rodeias a simplicidade dum qualquer saber estar, evocas as musas do Mondego num simples sopro, convocas as memórias num simples olhar.
Circundas a razão que faz do sorriso o silêncio mais lindo de se ouvir, e na inexistência de sons, na opacidade dos turbilhões que as presenças cicatrizam em nós, és...
E eu só sei que te venero, eu só sei que o mais puro ser reside não em mim, nem em ti, mas no pequeno espaço que faz de nós dois seres que se contemplam.
És em tudo, és porque és, porque eu quero que sejas,
Sabes que o que me atormenta não é a solidão? É saber que algures por aí o silêncio não será o berço do meu mundo imaginado.
E nas águas que me percorrem o corpo, quando encosto os braços à parede, quando esfrego os meus cabelos em movimentos sôfregos, e quando a humidade me consome, ai, eu juro que te percorro, eu posso garantir que sim...
E nas brisas que lá fora me seduzem a pele eu sei que as asas para te alcançar afinal já existem.
E no relance de telas pintadas, eu sei que sou feliz assim,
O eterno sonhador, o eterno inconformado, o eterno rapaz que vive no seu mundo, onde as músicas ganham as letras que os meus olhares escrevem, onde as músicas ganham as melodias que os meus cabelos murmuram...
O existir é tão mais que o percorrer, o sentir, o olhar, o saber... em mim...
Único, assim sou... assim somos...
Eu rogo aos segredos camuflados onde as pistas se possam ter refugiado, que ai eu encontre o alento da descoberta que a fantasia é um patamar não tão doloroso assim...

A minha alma não se liberta deste casulo de pele só porque tu não és, serás...
Os meus passos perdem-se no labirinto de atônitas direcções só porque tu serás, não és...